segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

'A sociedade não é só capitalismo'
14 de fevereiro de 2014


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Esta entrevista realizada com o secretário nacional de Economia Solidária, professor Paul Singer, 81 anos, e a coordenadora do Projeto Esperança/Cooesperança, irmã Lourdes Dill, 62, eles falaram sobre o fomento à economia solidária e ao cooperativismo no país. Os dois ainda avaliaram os 20 anos da Feira do Cooperativismo (Feicoop), o momento atual do Brasil, entre outros temas.

Nascido na Áustria e radicado no Brasil há 73 anos, o economista e sociólogo Paul Singer é um dos maiores especialistas em economia solidária do país. Ele percorre o mundo em busca de novas experiências e para levar o trabalho que é feito aqui e que é referência mundial. Socialista, Singer foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, em 1980, e defende ser possível haver uma convivência entre o sistema capitalismo a economia solidária.

Sobre o atual momento do partido, envolto em denúncia de corrupção, incluindo o esquema do mensalão, o líder petista admite falhas devido ao longo tempo do PT no governo federal, mas nega o mensalão, em que o governo Lula pagaria deputados federais para aprovar projetos do Executivo. Mas Singer é defensor da alternância de poder e, por isso, contra a reeleição. Seria uma das alternativas contra a corrupção. Ou seja, para o fundador do PT, o partido hoje é “chapa branca” e deveria se intercalar no poder com outras siglas. “Mas sem destruir o que fizemos até agora”, destaca.

Carismático e dono de uma lucidez impressionante, Singer ficará até o fim da feira, no domingo. Ele pretende conhecer cada detalhe do evento. Nessa caminhada entre os inúmeros expositores e em seminários e palestras, o ícone da economia solidária recebe enorme carinho dos participantes da feira. Ele atende a todos solicitamente. Posa para fotos, conversa com pessoas. Um exemplo de união que simboliza o cooperativismo.

Confira a seguir trechos da entrevista do professor Paulo Singer para A Razão.

Há diferença entre economia solidária e cooperativismo?

Paul Singer – Existe diferença, sim. Economia solidária é cooperativismo e é outras coisas também que foram desenvolvidas a partir do cooperativismo, tipicamente os bancos comunitários que são uma espécie de cooperativas mas não são. São bancos de bairro em que a população, os moradores, fazem a autogestão do seu banco. Enfim, a partir do cooperativismo e para enfrentar as crises do capitalismo, foi criada a economia solidária. O cooperativismo é a parte principal da economia solidária.

E o que dificulta a criação de cooperativas?

Singer – É principalmente o fato de que a lei do cooperativismo é muito antiga e está ultrapassada. Em 1971, no regime militar era exigido 20 pessoas, no mínimo para formar uma cooperativa. Na época não havia cooperativas de trabalho, só agrícolas, ou seja, era de agricultores. Desde a Constituição de 1988 há vários projetos, inclusive uma do senador Eduardo Suplicy (PT), de uma nova lei para o cooperativismo brasileiro que prevê o trabalho. Mas esse assunto continua indeciso no Parlamento porque a legislação antiga dava à organização das cooperativas o monopólio da representação política de todas as cooperativas no Brasil, praticamente obrigada a se registrarem na OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras). Isso é contra a Constituição, que explicitamente garante a liberdade de associação dos brasileiros. A OCB é dominada, ou pelo menos o peso maior na OCB, são as grandes cooperativas agrícolas, porque seus sócios são grandes empresas e não tem nada a ver com economia solidária.

Professor, capitalismo e economia solidária são sistemas conflitantes. É possível coexistirem no país?

Singer – Eles convivem, estão convivendo desde que a economia solidária existe, que é muito antiga. Os indígenas nossos eram economia solidária, uma forma totalmente igualitária. O capitalismo veio depois. A resposta, então, é sim.

O governo busca um equilíbrio entre os dois sistemas?

Singer – Não. O que se busca é desenvolver a economia solidária e, enfim, o capitalismo aí está, mas não temos política nenhuma em relação ao capitalismo, nem de equilibrar nem de desequilibrar.

O governo fomenta a economia solidária, ao mesmo tempo em que vivemos em um país capitalista. Isso não seria um contrassenso?

Singer – Não, o contrassenso é exatamente supor que não podem conviver. A sociedade não é só capitalismo. O capitalismo é só uma parte do Brasil, e nem é maior parte.

O Bolsa Família pode ser considerado um exemplo de economia solidária, já que divide renda e incentiva o trabalho?

Singer – Não, é o que se pode chamar de assistencialismo, de assistência social, negócio importante para chuchu. Não tem nada a ver com economia solidária, com capitalismo nem coisa nenhuma. É um direito à vida.

Mas existem programas para fomentar a economia solidária?

Singer – Existem sim. O Bolsa Família é um programa federal, mas há programas análogos ao Bolsa Família nos Estados. Com o Lula uniu todos os programas municipais, estaduais e federais no Bolsa Família, ela se tornou muito maior. Em São Paulo, o Maluf (Paulo Maluf, do PP, ex-prefeito de São Paulo), tinha um programa de distribuição de leite. Então, o assistencialismo ou coisa semelhante não é coisa só do governo federal. Cada um tem a seu modelo, mas todos os governos têm.

O senhor é um socialista, um dos fundadores do PT. Como vê o partido hoje com as acusações de corrupção, do mensalão?

Singer – Olha, como todo partido político que está há 10 anos no governo federal, é um período longo, ele sofre uma transformação pelo fato de estar governando o país e vários Estados e muitas cidades. Quer dizer, o PT, que nasceu totalmente alheio ao governo, ainda no regime militar, em 1980, hoje transformou-se, se você quiser, num partido chapa branca. É o que nós queríamos. Não é que ele fosse chapa branca, mas que nós pudéssemos chegar ao governo e realizar o programa do partido. Qualquer partido político é feito para isso, disputar eleição e ganhar eleição, se puder. Isso aconteceu com o PT, mas, agora, quando ele chega no poder e fica muito tempo, a corrupção começa a afetar o partido. Acho que quase todos os partidos que ficaram no governo longamente foram afetados por isso, e o PT também é afetado. Mas não dá para dizer que o partido é incólume, não tem nada a ver.

E o mensalão?

Singer - Acho que a interpretação do Supremo Tribunal Federal é totalmente equivocada. Foi inventado pelo Jefferson (Roberto Jefferson, ex-deputado federal do PTB que denunciou o esquema de compras de votos na Câmara, o chamado mensalão, que ele próprio teria participado). É ridículo supor que o governo federal tivesse que comprar o votos de seu próprio partido. É falso. Mas avia dinheiro e foi usado para comprar apoio nas eleições municipais logo em seguida existiu, isso não vou negar, foram milhões. A origem é conhecida, são aqueles empréstimos que o STF considerou falsos, mas eles foram legítimos.

O fato de o PT ter se tornado chapa branca o desvirtuou da sua linha?

Singer – Ele mudou, não necessariamente se desvirtuou. Nunca na história do PT havia tantas pessoas no governo, e essas pessoas servem ao partido, eu sou um deles. Mas isso muda a composição do partido. Sem dúvida nenhuma mudou o PMDB, não somos só nós. Há uma diferença entre partido de governo e partido de oposição.

O senhor defende a alternância de poder? Seria uma solução contra a corrupção, por exemplo?

Singer – Sim. Democracia é essencialmente essencial e uma das suas grandes virtudes é a alternância no poder. Ela não impõe, mas permite. A oposição na democracia é tão importante como quem ganhou.

Seria a alternância apenas de partidos?

Singer – De partidos, de coligações, seja o que for. Eu fui um dos muitos do PT que foram contra a reeleição. Agora o PSDB está querendo acabar com a reeleição. Isso é ótimo, já acaba tarde. Seria muito sadio para o PT e para o Brasil haver uma alternância, mas eu gostaria que fosse uma alternância que não destruísse o que nós construímos, se for possível. Nós no governo, alias, continuamos todas as políticas sociais do Fernando Henrique Cardoso. Fomos oposição a ele, à política econômica dele, mas não à política social. O próprio Bolsa Família teve início lá.

Para a eleição de 2014, seria então momento de não buscar a continuidade do PT no poder?

Singer – Não, enquanto a reeleição é legal, o PT não pode deixar de aproveitar o que a lei lhe permite. Seria um voto de castidade, e nós não estamos na religião. A Dilma está no governo e será candidata. Vamos lutar para reelegê-la.

E o ex-presidente Lula não deverá ser o candidato à Presidência?

Singer – Ele tem dito reiteradamente que não quer ser candidato. Eu conheço o Lula há muito anos, estamos juntos desde a fundação do PT, eu acredito que ele é sincero. Não acredito que realmente quer voltar a ser presidente. Mas ele continua na política e será político até morrer.

E como o senhor vê as manifestações no país?

Singer – Olha, está acontecendo alguma coisa muito importante no país, é difícil interpretar. Estou recebendo um bom número de interpretações, que são enviesadas. Gente que gostaria que esse movimento seja dos jovens, todo muito está querendo se apropriar desse movimento. Mas ele é mais amplo. Estou perplexo, o adjetivo é esse. A gente esperava que quando houvesse o movimento das passagens que houvesse uma movimentação, isso sempre há, desde que eu era criança. Mas que atingisse 44 cidades com milhões de pessoas nas ruas, surpresa absoluta. Como meu filho me falou, éramos infelizes e não sabíamos (risos).

Neste momento, o senhor acredita que o Brasil ainda possa ser um país socialista, pelo menos no modelo que hoje existe?

Singer – Espera um pouquinho. Vamos ver primeiro o que entendemos por socialismo, isso é importante. O socialismo chamado real era uma farsa, de socialismo não tinha nada. Era uma ditadura opressiva, cruel. Sinceramente… Cuba está tentando se livrar disso agora e vai conseguir, China está se livrando também. Não é nada para o futuro de nosso país. Nós queremos é democracia. Agora, na democracia o socialismo pode ser útil. Já está acontecendo, na verdade não precisa esperar se tornar socialista. Neste momento, no Brasil, há uma presença socialista, eu diria, respeitável. Não é maioria no país, longe disso. Não somos 4% ou 5% do PIB.

Fonte: Sociólogo Paul Singer, 81 anos, um dos ícones da economia solidária no mundo ficará em Santa Maria até este domingo (Rafael Dias/A Razão em 14/02/2014).

sábado, 28 de dezembro de 2013

O MOVIMENTO CIRCULISTA BRASILEIRO

1 - FUNDAÇÃO: O primeiro Círculo Operário do Brasil ou Círculo de Trabalhadores Cristãos, foi fundado em Pelotas, Rio Grande do Sul, em 1932, pelo Padre Leopoldo Brentano, Jesuíta. Hoje o Movimento está presente em 19 estados brasileiros. Articula-se com entidades congêneres;

2 - OBJETIVOS: Defesa e efetiva realização dos direitos e deveres dos(as) trabalhadores(as), de suas famílias e organizações, por uma sociedade justa e solidária;

3 - INSPIRAÇÃO: Doutrina Social Cristã (Encíclicas Sociais), os Evangelhos, a ética social cristã e na filosofia social humanista;

4 - NATUREZA: Os Círculos de Trabalhadores Cristãos são associações civis de interesse público, democráticas, supra-partidárias, não-confessionais (abertas ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso);

5 - PRINCÍPIOS: Prioridade do trabalho sobre o capital; formação e participação; justiça econômica e social; responsabilidade e profissionalismo; autonomia econômica e financeira; planejamento estratégico; atenção especial aos que mais precisam.

6 - ESTRUTURA: Círculos locais, Federações Estaduais, Confederação (CBTC, com sede em Brasília), com Estatutos e diretorias eleitas. O Movimento realiza Congressos Nacionais a cada 4 anos;

7 - EDUCAÇÃO PERMANENTE: O Movimento "Defende que, além da educação e da formação básica, os(as) trabalhadores(as) têm direito a aperfeiçoamento contínuo, tanto profissional quanto humano, social e cultural" (Carta de princípios Doutrinários e Programáticos do Movimento Circulista, 2004, 4.2). Destaque para a participação dos jovens e das mulheres;

8 - INFORMAÇÕES: Página do Movimento Circulista na web: www.cbtc.org.br - e-mail: cbtcnacional@bol.com.br;

9 - DO NOSSO HINO: "Nós trazemos um lema que encerra um programa de paz e de amor; pois queremos que acabem na terra a opressão, a injustiça, o terror."

10 - FÓRUM SOCIAL MUNDIAL/2009: "Outro mundo é possível, necessário e urgente."
(Belém do Pará de 27-01-2009 a 01-02-2009);

11 - NOSSA MÍSTICA: "Enquanto temos tempo, façamos o bem a todos..." (Gal. 6,10).

Seminário de Formação Circulista no Rio de Janeiro, em 07-02-2009
Padre Martinho Lenz, SJ - Conselheiro do Círculo de Trabalhadores Cristãos Centro-Sul.
Rua Bento Lisboa, 85-A - Catete - Rio de Janeiro - CEP: 22.221-010

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

AGO do Círculo de Trabalhadores Cristãos de Gravatá no dia 18/08/2013

CÍRCULO DE TRABALHADORES CRISTÃOS DE GRAVATÁ                      

Filiado a Federação de Trabalhadores Cristãos de Pernambuco
Inscrição Estadual: 0102750-61 CNPJ 10.313.880/0001-00
Rua Cleto Campelo, 96 – Centro – Tele/Fax: (81) 3533-0501
CEP 55641-000 – Gravatá – Pernambuco
e-mail: ctcgravata@bol.com.br





EDITAL DE CONVOCAÇÃO


Pelo presente Edital de Convocação, o Círculo de Trabalhadores Cristãos de Gravatá, na forma do capítulo VII, artigo 21º, parágrafo único dos estatutos sociais, convoca todos os seus associados a se fazerem presentes à Assembléia Geral Ordinária, a ser realizada no dia 18 de agosto de 2013 às 8:00h em sua sede à Rua Cleto Campelo, 96 em 1ª convocação e em 2ª convocação, no mesmo local, às 09:00h, para votarem e deliberarem a respeito da seguinte ordem do dia:



- Apresentação dos Relatórios Social e Financeiros do exercício de 2013






Gravatá, 02 de agosto de 2013.





           DAYVISON BARBOSA DA SILVA
                PRESIDENTE








quarta-feira, 19 de junho de 2013

Belo depoimento do Bispo Auxiliar de Aracajú - SE, Dom Henrique Soares da Costa, sobre as manifestações Brasil a fora.



Padre Roger Luis
 · 33.543 curtiram isso
Ontem às 17:25 ·  - 18/06/2013
  • Palavra importante de Dom Henrique Soares da Costa, Bispo Auxiliar de Aracajú - SE, sobre as manifestações que acontecem no Brasil.

    "Perguntam-me uma opinião sobre as manifestações.
    São boas. São ótimas.
    Há muito se sente uma fadiga da sociedade, um pouco caso com as demandas do povo.
    São tantos casos de corrupção, são tantas necessidades básicas não atendidas devidamente, são tantas insensibilidades dos governantes, são tantos cinismos, com a ideia de ficará tudo por isso mesmo...
    A inflação está de volta, as políticas são pautadas mais por ideologia que pela busca do bem do País...

    Nestas manifestações - que são legítima expressão democrática - só há que cuidar três aspectos:
    1. Que não sejam manipuladas por grupelhos, sobretudos por partidos especializados nisso: em pegar carona em atos públicos para usá-los ideologicamente,
    2. Que não caia em atos de violência, anarquia e vandalismo. Na democracia devem caminhar juntos a liberdade de expressão e o respeito à ordem.
    3. Que se procure esclarecer, ao menos em linhas gerais, quais demandas, quais reivindicações estão no coração da sociedade".

    É hora de mudança meu povo, em 2014 temos que mostrar no voto que realmente o gigante despertou! #mudabrasil #verasqueumfilhoteunaofogealuta
No facebook: https://www.facebook.com/padrerogerluis/posts/422645131167277

terça-feira, 18 de junho de 2013

E aí Brasil? Puxão de orelhas nos gestores.

Gente eu estou emocionado com as manifestações Brasil a fora, os jovens acordaram, a última manifestação forte dos jovens foi no impeachment de Collor, com os caras pintadas de lá pra cá, foram pacientes, mas, a onda de corrupção, descaso com o povo e a farra com o dinheiro público foram o estopim e só podia dar no que deu e este movimento tem uma curiosidade não foi convocada por nenhum partido político (todos iguais) e sim pela necessidade de uma geração sufocada por mentiras e manipulação do poder, mas, que tem a seu favor uma poderosíssima ferramenta, a internet, inerente a sua época.
Políticos oportunistas, entendam os recados destes manifestos ou serão atormentados por esta nova geração... Não subestimem essa moçada!!!

PARABÉNS GERAÇÃO Y

Saúde e paz a todos.

Mário Sérgio

terça-feira, 11 de junho de 2013

Entrevista de Paul Singer, Secretário Nacional de Economia Solidária (SENAES) concedida a Ricardo Prado do Caderno de Sustentabilidade do Carta na Escola

O auto emprego coletivo
Por Ricardo Prado

Na 3ª edição do nosso Caderno de Sustentabilidade, Paul Singer defende que a economia solidária é uma forma criativa de gerar renda, valorizar e fortalecer o conhecimento das comunidades.
Confira Secretário Nacional de Economia Solidária, o economista Paul Singer está atento aos milhares de movimentos subterrâneos que vêm acontecendo debaixo de nosso nariz. São cooperativas formadas por ex-desempregados, por vizinhos e pequenas comunidades, ou, ainda, por artesãos ou pescadores que antes nadavam cada um por si - e todos contra a corrente econômica. Nesta entrevista concedida a Ricardo Prado, Singer conta como nasceu a ideia do cooperativismo e dimensiona o alcance dessa mudança de atitude de milhões de trabalhadores que abandonaram o sonho de ser funcionários com carteira assinada sem precisar, também, deixar de sonhar com uma vida melhor.

Carta na Escola: Há um boom atual do cooperativismo que nasceu com o movimento ambientalista e o comércio justo. Ele chega a ter algum impacto econômico?

Paul Singer: Digamos que já aparece, não é traço. O comércio justo, pelo que estou informado, está crescendo na Europa à base de uns 20% ao ano.
Isso é explosivo, quer dizer que, de três a quatro anos, isso dobra. Então, hoje já se conta em bilhões de dólares o movimento do comércio justo, mas, ainda assim, do comércio internacional é coisa de 2%.
 
CE: O comércio justo pretende eliminar o atravessador?
 
PS: Não, eles próprios são atravessadores. O comércio justo é comércio. Sem fins lucrativos, dentro do espírito da economia solidária, mas eles têm os custos normais do comércio, só que fazem questão de remunerar melhor os produtores. Por isso que é justo e solidário, pois dá aos agricultores e extrativistas uma remuneração bem melhor. O que significa que o produto do comércio justo pode ser 10% mais caro que o outro. E tem a parte ideológica, eu vi isso acontecer na Europa, eles têm feiras de comércio justo, muita gente está lá comprando e não está atrás de barganhas, tem outras razões. Uma das razões é saber que se está ajudando uma coisa que merece ser ajudada em termos ambientais e sociais. Eu estive lá, em uma feira na Alsácia, na França, para comprar umas coisas para trazer para o Brasil. O atendimento é totalmente oposto ao de um supermercado. Tem gente lá que está interessada em contar histórias.

CE: Era uma feira regular de comércio justo?

PS: Acho que sim. Fui convidado para fazer umas conferências, passei algumas horas lá e fiquei muito bem impressionado. Não só pela quantidade de pessoas que estava circulando ali, mas, sobretudo, pelo entusiasmo dos vendedores. Eles não viviam disso, eram militantes. Mostraram-me o sistema de aquecimento solar artesanal e barato. Mesmo áreas que não têm energia elétrica podem ter o uso de energia solar para aquecer água, cozinhar. É um aparelho que não custa muito caro porque é artesanal. Você vê várias coisas ali.

CE: Nessas feiras também se vende tecnologia, então?


PS: Vende-se tudo, tecnologias, ideias, afeto. Você entra num mercado capitalista, pelo menos eu, e a primeira coisa que tenho é a vontade de não ser enganado. Quando você entra num centro de economia solidária, o espírito é totalmente outro, inclusive ninguém está interessado em dizer: “Compre o meu produto".

CE: Como surgiu a Secretaria Nacional de Economia Solidária, uma experiência inédita no Brasil?

PS: A história da Secretaria de Economia Solidária nasce, inicialmente, na campanha de 1998. Lula estava muito preocupado com o desemprego. Ele organizou no Instituto da Cidadania um seminário sobre o desemprego. Eu tinha feito uma viagem de avião com ele e comecei a defender a ideia de que nós deveríamos organizar os desempregados. Ele me olhou com espanto: "Olha, o que o sindicalista menos quer ver na frente é desempregado, porque desempregado é competidor do trabalhador assalariado que ainda tem emprego e é sócio de sindicato; portanto, o sindicato organizando desempregados é um contra-senso, porque o interesse do desempregado é tomar o seu emprego". Eu disse para ele que nós tínhamos soluções para os desempregados. É para organizar, para eles terem emprego, mas não emprego capitalista, é auto emprego coletivo, isso é possível de fazer, organizando- os em cooperativas e produzindo uns para os outros. No final daquele seminário sobre desemprego, acho que a semente ficou. Quando Lula foi eleito, em 2002, me pediu e eu escrevi umas duas páginas sobre economia solidária para o programa dele. Hoje ele é um partidário convicto da economia solidária.

CE: Então Lula mudou de opinião?


PS: Ele mudou lá nos anos 90 e em 2002 estava comprometido com a economia solidária. Ele não falou com ninguém e decidiu que a economia solidária seria promovida pelo BNDES, porque na cabeça dele essa questão está muito ligada ao microcrédito, o que em parte tem razão, pois um dos problemas da economia solidária é ter acesso ao capital. Ele me convidou, na verdade, para ser diretor do BNDES e aceitei, tudo isso antes da posse.
O presidente do BNDES ia ser o Carlos Lessa. Ele foi chamado pelo presidente eleito, aceitou e deu uma entrevista dizendo que 'o Lula dera liberdade total de escolher os diretores menos um, que é o Paul Singer'.
Fiquei sabendo assim! Depois, a ideia evoluiu para a criação de uma Secretaria de Economia Solidária vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego.

CE: Está havendo um fortalecimento da economia solidária no Brasil?
 
PS: Sim. A Organização das Cooperativas do Brasil (OCB) estima em 6 milhões de cooperados. A economia solidária vem sendo mapeada pela Secretaria em parceria com as universidades do Brasil. No fim do ano passado contávamos com 22 mil empreendimentos da economia solidária no Brasil e esses são economias solidárias mesmo, autogestionadas, às quais estavam associadas 1,75 milhão de pessoas. Já não é uma coisa insignificante, e nós nem conseguimos mapear a totalidade dos municípios brasileiros. Existe um comitê gestor em cada estado que organiza a ida aos municípios ainda não visitados e sempre se encontram empreendimentos de economia solidária sob forma de cooperativas e associações ou grupos inteiramente informais. Graças a essa atividade junto ao pessoal das DRTs, estão vindo agora para a economia solidária as comunidades tradicionais, especialmente indígenas e quilombolas. São 700 mil indígenas vivendo hoje no Brasil em comunidades e eles descobriram que os valores da economia solidária são exatamente os mesmos tradicionais deles. Há também quebradeiras de coco, seringueiros, pescadores, garimpeiros, todas comunidades tradicionais.

CE: É um retorno às origens, mas ao mesmo tempo com um olhar contemporâneo?

PS: Isso. E a economia solidária é um instrumento para isso.

CE: Falando em origens, quando surgiu o cooperativismo?


PS: A reação dos trabalhadores à Revolução Industrial foi extremamente negativa, porque a Revolução Industrial estava destruindo o seu modo de vida. Eles chegaram a matar inventores, queimavam fábricas, e era até compreensível que fosse assim. É com Robert Owen, na primeira década do século XIX, se dá uma mudança de atitude, pois ele, sendo um industrial, percebia a revolução como uma coisa positiva. O que ele propunha era aproveitar os ganhos da Revolução Industrial em favor dos trabalhadores.

CE: Owen era de família rica?

PS: Ele casou com a filha de um proprietário de fábrica e acabou sendo diretor de um grande complexo têxtil em New Lanark. Na fábrica ele proibiu o trabalho infantil, limitou a jornada de trabalho, criou escolas e cuidava para que os trabalhadores tivessem condições decentes de trabalho e vida. E a fábrica dava muito lucro. Com isso Owen deu para as cooperativas, que no início eram puramente defensivas, uma proposta de mudança social. A cooperativa como um sinal de uma possível sociedade diferente no futuro.

CE: Estamos falando de cooperativas de produção. Quando começam a surgir as primeiras cooperativas de consumo?


PS: Elas surgiram simultaneamente. As primeiras eram para garantir a subsistências dos trabalhadores. Eram cooperativas que vendiam alimentos para os trabalhadores, inclusive para os que estavam em greve, funcionava como um fundo de greve. Os associados eram todos trabalhadores. Esse movimento de cooperativismo de consumo ganhou um poder econômico imenso.
Na passagem para o século XX, o varejo era dominado por cooperativas, não só na Inglaterra, mas em todo o continente europeu. Houve um momento em que eles tinham superioridade financeira e competitiva em relação ao pequeno comércio. Só que esse desenvolvimento entrou em crise quando o capital norte-americano investido no comércio inventou o auto-serviço, ou seja, o supermercado, que não tem empregados e cria toda uma tecnologia de embalagens para o freguês se servir sozinho, coisa que não acontecia antes.

CE: Uma cooperativa no sistema tradicional não distribuía lucros?
 
PS: Algumas dessas grandes cooperativas que se transformaram, ao longo do século XX, em supermercados, competindo com os outros estabelecimentos capitalistas, viraram sociedades anônimas, são empresas capitalistas.
Agora, outra parte desse movimento cooperativista continuou de esquerda - e a ideologia é importante nesse caso - e entrou para o comércio justo, o consumo responsável, o movimento ambientalista, quer dizer, garante produtos puros... Na Suécia, por exemplo, as cooperativas de consumo hoje vivem um novo auge, porque elas se diferenciam dos seus concorrentes capitalistas pela qualidade do serviço que oferecem aos consumidores.

CE: As cooperativas sempre deram muita atenção à educação. Essa ligação forte com a educação permanece?

PS: A origem dessa ênfase na educação está no pensamento de Robert Owen de que o homem é fruto da educação. Ele tinha, no fundo, uma teoria materialista que Marx depois transformou em uma coisa bem mais sofisticada, combinando com a dialética de Hegel, mas a ideia básica de Owen era essa: se você quer gente boa, se quer bons cidadãos, gente pacífica, dê-lhes uma educação eficiente. Na sua fábrica, Owen introduziu a escolaridade obrigatória das crianças, tirou-as da fábrica e levou-as para a escola. Atualmente, o que nós temos no Brasil e em outros países são muitas cooperativas na área educacional. Há vários educadores que deram às suas escolas o caráter auto gestionário. O escritor russo Leon Tolstoi foi um deles. Ele criou uma escola em que não havia professores, as crianças praticamente aprendiam guiadas pela sua própria curiosidade.
Esse é um dos experimentos mais bonitos do século XIX em termos de educação. Depois foram repetidos na Polônia com Janusz Korczak, na Inglaterra com Alexander Neil e a escola de Summerhill, e hoje há centenas de escolas funcionando como cooperativas, inclusive no Brasil.

CE: O senhor tem algum bom exemplo de economia solidária envolvendo jovens estudantes no Brasil?

PS: Um ótimo exemplo são os alunos da chamada Casa Brasil. É um centro de inclusão digital criado pelo governo federal, hoje existem 3 mil casas pelo território sempre nas áreas mais pobres, nas favelas principalmente.
Eles frequentam essas casas e, depois, se profissionalizam, criam cooperativas para fazer softwares, para dar assessoria aos usuários de computador que muitas vezes precisam tanto para aprender como depois consertar, além de fazerem a reciclagem dos computadores. Porque computador uma vez superado do ponto de vista de seu usuário não tem mais o que fazer e ele acaba sendo poluidor. Há um caso que conheço de uma cooperativa de jovens em Fortaleza, no Ceará, em uma grande área pobre chamada Pirambu, eles têm uma cooperativa digital que atua em quatro atividades distintas da informática. Eles conseguem reciclar e vender computadores para a comunidade por 300 reais, a prazo, se não me engano pagando 30 reais por mês. Isso os pobres podem pagar.

CE: Gostaria que o senhor comentasse a experiência do Grameen Bank, criado pelo Prêmio Nobel de Economia, o economista Muhammad Yunus. Por que ela obteve tanta repercussão?


PS: Porque é o próprio espírito da economia solidária. O Grameen Bank é um banco que existe em 20 mil aldeias em Bangladesh e tem mais de 7 milhões de clientes, que são donos do banco. É a maior cooperativa do mundo. E é democrática. A política de Yunus é financiar mulheres. Ele quer resgatar os mais pobres e percebeu que as mulheres são muito mais pobres do que os homens. Ele, um muçulmano, atribui isso à religião muçulmana. Em Bangladesh, o Grameen Bank só financia homens quando eles são chefes de família e não têm mulher, o que equivale a cerca de 4% ou 5% dos clientes donos do banco. Mas havendo mulher é ela quem será financiada. O financiamento de construção de casas, por exemplo, só acontece se o terreno estiver no nome da mulher, que não costuma ter propriedade alguma em seu nome. O Grameen Bank é um banco revolucionário, feminista se você quiser. Eles agora estão lutando contra o dote, que arruína as famílias grandes e pobres. Segundo Yunus, dois terços dos sócios do Grameen Bank não são mais pobres. E nenhuma mulher recebe crédito sozinha. Ela tem de formar um grupo de cinco.

CE: Por que se formam esses grupos?


PS: Para unir as pessoas para que elas se ajudem mutuamente. Além de ajudar as pessoas com os empréstimos, o Yunus quer que as pessoas se ajudem. Trocando ideias sobre os seus negócios, fazendo algo juntas, se eventualmente quiserem. O interessante é que a cada oito grupos de cinco forma-se um grupo de 40 pessoas, assistido por um agente de créditos. Os agentes vão à casa das pessoas, em vez das pessoas irem às agências, que nem existem. É tudo ao contrário dos bancos capitalistas, para quem o devedor é um mal necessário que gera lucros, mas é visto com extrema desconfiança. Eles escolhem os que precisam menos, mas que seguramente vão devolver o empréstimo. O Grameen Bank é completamente diferente. Teve um seminário na Espanha em que uma mulher perguntou o que deveria fazer para ser aceita no banco. O Yunus respondeu: "Se você vivesse em Bangladesh, teria de se submeter a uma visita. Se tiver cama no seu quarto, está excluída do banco". Essa é uma diferença essencial. O que interessa é o princípio ético de atender aos mais pobres. Nunca tivemos no Brasil nenhum banco que seguisse essa filosofia. Mas a ideia está sendo difundida no mundo inteiro.